Intensificação, uberização e youtuberização do trabalho docente

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Confira entrevista com Amanda Moreira (Asduerj)

O Travessia, publicação trimestral da APES, traz em sua edição de Julho o especial Vida, trabalho e invisibilidades, para abordar os desafios do trabalho docente para as mulheres durante a pandemia. A matéria publicada na editoria de Cultura do jornal sintetiza a atual condição das docentes, num cenário que conjuga desigualdade de gênero, descaso com a educação pública e um governo genocida. Para traçar um painel das atuais condições das professoras durante este contexto, entrevistamos Amanda Moreira, Dina Faria, Renata Domingues e Sabrina Ferretti, docentes das redes federal, municipal e estadual de ensino, sobre os impactos do ensino remoto e da pandemia em suas vidas e dinâmicas de trabalho.

Confira a seguir a entrevista com a professora Amanda Moreira , professora da UERJ e diretora da Asduerj.

APES: Pesquisa realizada pela UERJ apontou que houve, na pandemia, intensificação, uberização e youtuberização do trabalho docente. Como esta precarização generalizada é vivenciada pela mulher docente?

Amanda: Essa pesquisa foi desenvolvida pelo nosso sindicato, a Asduerj, no período de novembro a dezembro de 2020, e o objetivo foi analisar como foi a experiência dos professores/as no primeiro período acadêmico emergencial que aconteceu em 2020 ,e para pensar o futuro, como seriam os próximos períodos remotos, ao longo de 2021. A pesquisa teve uma amostra importante, com 20% do total dos docentes da universidade, de todos os centros setoriais, de todas as unidades e de todas as categorias docentes, indo dos titulares aos substitutos. Tivemos professores que atuam na pós-graduação, que não atuam na pós-graduação, que são filiados, que não são filiados. E tivemos 62% de participantes mulheres. A pesquisa foi importante para a comprovar questões que nós já vínhamos apontando enquanto sindicato, que já apareciam nos espaços sindicais, nas plenárias, nas assembleias. Uma delas é a questão da intensificação do trabalho. Tivemos, sim, uma intensificação do trabalho na UERJ, no período emergencial, no ensino remoto. Quase 60% das professoras trabalharam além da carga horária contratual. Dessas, 14% trabalharam mais de 12 horas diárias, considerando que a carga horária máxima de trabalho na universidade é de 40 horas semanais, o que significa 8 horas diárias. Tivemos um contingente muito expressivo de professoras e professores que trabalharam além da carga horária contratual. Além do trabalho nos feriados, finais de semana, que foi algo muito comum. Apenas 3% dos docentes e das docentes afirmaram que nunca trabalharam nos finais de semana e apenas 4% afirmaram que nunca trabalharam nos feriados. Vemos uma naturalização do trabalho fora da carga horária semanal. E 71% dos professores/as respondeu que houve aumento de trabalho em relação a períodos anteriores a pandemia. De fato, o trabalho remoto na educação trouxe, para o contexto do ensino superior, um aumento da carga de trabalho. E desses/as professores/as, 90% afirmaram que têm a impressão que o tempo não é suficiente para cumprir todas as demandas. Considerando neste contexto o trabalho das mulheres, vemos que a situação é muito mais preocupante, por conta das diversas tarefas que ainda recaem sobre os ombros das mulheres, como trabalho doméstico, o cuidado com as crianças, com os idosos, com o ensino dos filhos – considerando o fechamento das escolas e creches na pandemia, especialmente ali naquele período de 2020; a nova rotina imposta pelo home office, muitas mulheres que contratavam outras mulheres na maioria das vezes para exercer algum tipo de trabalho dentro das suas residências passaram a não fazê-lo, portanto acumulando essas funções. A pandemia escancarou essa desigualdade na função do cuidado, da responsabilidade, que sobrecarrega as mulheres. E com as mulheres no ensino superior isso não é diferente. Segundo a PNAD do IBGE, a mulher trabalha o dobro de horas, com trabalhos domésticos, em comparação aos homens. Embora a nossa pesquisa não tenha focado necessariamente na questão de gênero –  nós apresentamos um relatório completo da pesquisa, disponível na página do sindicato – essas análises, inclusive o corte de gênero, ainda serão alvo de novas análises que estamos realizando por uma comissão. Para concluir essa primeira pergunta, vou trazer a questão da uberização. A pesquisa também apontou isso como um resultado. O ensino remoto foi resultado de um esforço quase exclusivo dos docentes e das docentes. Os professores e professoras arcaram com todos os custos e o provimento do trabalho. Isso é uma característica da uberização do trabalho. Por exemplo, 70% dos professores que respondeu a pesquisa disseram que possuem os recursos tecnológicos suficientes para ministrar as atividades remotas, mas destes, 84,5% tiveram que fazer adaptações nas condições de casa para desenvolverem as atividades remotas. E aí inclui: 53% que compraram equipamentos mobiliários; 52% que adquiriram novos contratos de internet; 59% fizeram adaptações nos cômodos das residências; 77% tiveram que ajustar a rotina da casa; e 72% compartilham equipamentos com outros membros da família. Considerando que os professores responderam a mais de uma alternativa. Esses são alguns dados que exemplificam o processo de uberização do trabalho docente, de custeio dos próprios instrumentos de trabalho sem nenhum ou pouco auxílio da instituição nesse contexto. Considerando que apenas 26% dos pedidos de equipamentos foram atendidos pela administração central da universidade – chips e tablets que foram distribuídos aos professores que solicitaram.

APES: Podemos dizer que a pandemia escancarou processos já bastante cristalizados no meio acadêmico? Tais como o machismo, a invisibilização das dimensões do trabalho feminino e exigências de produtividade sem políticas que deem conta das desigualdades estruturais de gênero?

Amanda: É importante destacar a partir da pesquisa que, apesar do contexto pandêmico, do processo de intensificação, uberização, youtuberização do trabalho docente, essa transformação radical do trabalho para os meios remotos… Apesar de tudo isso e do acúmulo de tarefas quando estamos nos referindo ao trabalho das mulheres, os professores e professoras que participaram das pesquisas demonstraram que mantiveram uma alta produção acadêmica. 18% publicaram livros, 55% publicaram capítulo de livro, 73% publicaram artigos em periódicos, 29% publicaram em Anais de evento, entre outras inserções na produção científica no ano de 2020. Identificamos esse esforço da produção acadêmica que se manteve. E 76%  dos/das docentes afirmaram que 2020 representou uma mudança no padrão da sua produção acadêmica. 50% afirmaram que produziram menos, 26% afirmaram que produziram mais, e para 24% não houve mudança no padrão de publicação. É importante destacar que há uma diferença na produção de homens e mulheres, e na pandemia isso se sobressai. Pesquisas como a Parent in Science, indica que as mulheres têm uma publicação de artigos maior que os homens no contexto brasileiro. No entanto, na pandemia, essa produção acadêmica das mulheres despencou em 2020. Isso demonstra que a questão dos cuidados, do trabalho doméstico, da recarga de trabalho por conta dos filhos, dos idosos, teve seu reflexo nesse momento. Segundo essa pesquisa do Parent in Sciente, em 2019, o Brasil era o país ibero-americano com a porcentagem maior de artigos assinados por mulheres. E na pandemia o impacto foi brutal. Esse impacto que aconteceu sobre as mulheres não se aplica aos homens. Isso é importante destacar, porque não só atingiu os docentes e as docentes em relação a produção acadêmica em si, mas atingiu as estudantes. Segundo a pesquisa do Parent in Science feita entre abril e maio de 2020, entre os cerca de 10 mil alunas/os da pós graduação pesquisados, menos de 10% conseguiram seguir com suas teses e dissertações naquele período. Enquanto 20% dos homens ou mulheres sem filhos conseguiram seguir normalmente. É uma desigualdade que acomete principalmente as mulheres mães, cientistas, pesquisadoras, e que a pandemia aprofundou essa desigualdade de gênero.

APES: Como instituições de ensino e pesquisa poderiam atuar na redução dos impactos das desigualdades de gênero entre o corpo docente, técnico e estudantil, neste momento de crise sanitária?

Amanda: Muita coisa que deveria ser feita não foi feita. A pesquisa do nosso sindicato exemplificou isso. Nós, desde o início, fizemos um documento de garantias e direitos durante o trabalho remoto. Foi um documento que teve como base uma nota técnica do Ministério Público do Trabalho, e fizemos um documento adaptado para a nossa universidade que virou uma Resolução no Conselho Universitário, que previa ali uma série de direitos a serem atendidos para professores e professoras no contexto da pandemia. Não preciso dizer que isso não foi implementado, digamos assim, como uma norma, apesar de ser aprovado no Consu. Teve uma série de questões que inviabilizaram essas reivindicações, também por conta da questão orçamentária da universidade, devido aos cortes e contingenciamentos que tem ocorrido não só nas federais, mas nas estaduais. E no Rio de Janeiro temos passado por um contexto bastante específico diante de um regime de recuperação fiscal. Nesse documento, incluímos diversas questões, como as garantias de instrumentos de trabalho, de respeito a jornada de trabalho. E vimos que nada disso aconteceu. Acredito que algumas iniciativas deveriam ter sido tomadas. A redução da jornada de trabalho, sem redução de salário, teria sido importante, principalmente considerando as mulheres neste contexto de pandemia. A assistência estudantil, especialmente para as mulheres estudantes da graduação e da pós-graduação, que são mães, que enfrentaram um contexto bastante específico nesse momento da pandemia. Um auxílio financeiro para os estudantes e principalmente para as estudantes seria fundamental. Cabe destacar que tivemos um avanço importante por conta da luta das mulheres cientistas: a inclusão da licença-maternidade na plataforma Lattes, conquista recente que aconteceu porque, de fato, isso representa um desafio para quem concilia maternidade e a carreira de cientista no Brasil. Essa inclusão da licença maternidade na plataforma Lattes dá a possiblidade das mulheres mães indicarem o tempo dedicado aos filhos. Para evitar aqueles buracos de meses ou mesmo de anos que prejudicam essas mulheres cientistas quando elas concorrem a editais de fomento ou participam de programas de bolsas. Temos também na UERJ o Grupo de Trabalho Mães Cientistas, com uma discussão específica do contexto das mulheres mães, que poderão contribuir com este debate.

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