“Com a chegada da pandemia e a necessidade do isolamento social vi minha casa se tornando uma extensão da escola”

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Confira entrevista com Renata Domingues (Colégio de Aplicação João XXIII)

O Travessia, publicação trimestral da APES, traz em sua edição de Julho o especial Vida, trabalho e invisibilidades, para abordar os desafios do trabalho docente para as mulheres durante a pandemia. A matéria publicada na editoria de Cultura do jornal sintetiza a atual condição das docentes, num cenário que conjuga desigualdade de gênero, descaso com a educação pública e um governo genocida. Para traçar um painel das atuais condições das professoras durante este contexto, entrevistamos Amanda Moreira, Dina Faria, Renata Domingues e Sabrina Ferretti, docentes das redes federal, municipal e estadual de ensino, sobre os impactos do ensino remoto e da pandemia em suas vidas e dinâmicas de trabalho.

Confira a seguir a entrevista com a professora Renata de Oliveira Domingues Luiz, Professora de Música do Departamento de Letras do Colégio de Aplicação João XXIII/UFJF.

APES: Na condição de mulher, mãe (se for o caso) e professora, como você tem vivenciado a experiência da pandemia?

Renata: Bom, primeiro eu gostaria de agradecer o convite para participar desta entrevista e poder falar um pouco sobre os desafios que, nós docentes, enfrentamos neste momento de pandemia. É um prazer falar aos leitores do informativo “Travessia”.

A pandemia nos trouxe uma nova dinâmica de vida. Anteriormente, saíamos para executar as atividades docentes, e assim, os locais de trabalho, estudo e descanso estavam bem demarcados. Era mais fácil organizar a rotina de trabalho. Com a chegada da pandemia e a necessidade do isolamento social vi minha casa se tornando uma extensão da escola. A sala de casa tornou-se a sala de aula, sala de reunião, sala de estudo. Tenho duas filhas, uma na educação infantil e outra no 6º ano fundamental, e esta mudança em nossas rotinas não tem sido fácil. Realizar as atividades docentes, orientar os estudos das minhas filhas e realizar as tarefas do dia a dia são um desafio. Quando preparo o material para aula ou quando estou ministrando uma aula virtual sou interrompida diversas vezes. Me preocupo com a aprendizagem dos alunos e em oferecer um bom atendimento, mesmo sabendo que à distância o ensino é totalmente diferente. Eu ministro uma disciplina em que a prática é muito importante e isto se perde no ERE.  Esta é uma questão que temos que lidar com a pandemia, na verdade temos que lidar com várias questões. Ser professora e mãe na pandemia envolve pensar no desenvolvimento dos nossos estudantes, mas também pensar no bem-estar mental dos nossos filhos que passaram a dividir o seu lar com o trabalho da mãe. O isolamento social também impôs dificuldades na vida das crianças e adolescentes pela falta de convívio com seus pares fazendo com que nós, pais, tenhamos mais atenção com eles. A vivência que tenho experimentado com a pandemia é de aprendizado, de paciência e reconstrução. A cada dia busco uma forma de melhorar a organização das minhas atividades e tento tornar o ambiente de casa mais leve. Tenho aprendido a separar o tempo da minha família e o tempo do trabalho visando manter a minha saúde e da minha família e estar feliz na realização do meu trabalho.

APES: Pesquisas apontam que houve, na pandemia, intensificação, uberização e youtuberização do trabalho docente. Como esta precarização generalizada é vivenciada pela mulher docente?

Renata: A intensificação do trabalho docente repercute de forma negativa em nossas vidas. São várias horas do dia diante das telas, preparando atividades, ministrando aulas, e participando de reuniões. Anteriormente, realizávamos muitas atividades, mas as mesmas aumentaram significativamente durante a pandemia. Tivemos que aprender a utilizar outros recursos que não eram necessários no presencial e isso trouxe muitas horas em cursos, em elaboração de materiais e reuniões. A necessidade de inserção ao ensino remoto fez com que professores tivessem que apreender a utilizar ferramentas as quais não estavam ambientados em um curto espaço de tempo. Esta intensificação repercute não só na vida dos docentes, mas também nas vidas das pessoas com as quais convivemos. Muitas vezes passamos o dia inteiro em frente ao computador e não nos sobra tempo para auxiliar as atividades dos filhos ou mesmo ter uma conversa. É importante destacar que o docente também precisa realizar outras atividades além das laborais. A precarização do trabalho docente nos preocupa muito, pois pode gerar problemas na saúde e impedir a realização das atividades.

APES: Como você analisa as pressões sofridas por instituições e docentes ao retorno presencial das atividades escolares, no atual momento da pandemia?

Renata: Vejo com preocupação este movimento para o retorno das aulas presenciais. Vemos todos os dias os dados de contágio aumentarem, a cada dia vemos mais pessoas próximas a nós sofrendo com este vírus. Pensar em abrir o espaço físico das escolas neste momento, é ampliar a possibilidade de contágio de famílias inteiras, é também ignorar ou tentar minimizar o efeito devastador deste vírus. Me preocupa retornar sem vacina para todos, pois sabemos que seremos responsabilizados se problemas surgirem. Compreendo a preocupação de alguns pais com seus filhos, com a importância do contato dos alunos com seus pares. Esta também é minha preocupação como mãe, mas neste momento é essencial a distância para a preservação da vida. As escolas continuam funcionando, continuamos lecionando e trabalhando muito para tentar garantir o desenvolvimento de nossos estudantes.

Acesse as demais entrevistas da série aqui.