
A APES realizou na última quinta-feira (27/11) o evento “Entre Barreiras e Resistências: Racismo Institucional, Cotas e a Construção de uma Universidade Antirracista”, marcando o Novembro Negro e reforçando o compromisso da entidade com a luta antirracista. A atividade, organizada pelo Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCGDS) da APES, reuniu uma mesa de debate, o lançamento do livro “Terra, capital e trabalho no modo de produção escravista: bases agrárias do racismo brasileiro” e um momento de confraternização.
A mesa contou com a participação de Jacyara Paiva (segunda secretária da Regional Leste do ANDES-SN e docente da UFES), Carolina Bezerra (docente do C.A João XXIII) e José Amilton de Almeida (docente da Faculdade de Serviço Social da UFJF), que discutiram de forma aprofundada os desafios impostos pelo racismo institucional nas universidades brasileiras, em especial aos docentes.
Entre os pontos debatidos, destacou-se o descumprimento deliberado da lei de cotas, entendido como parte de um projeto histórico de manutenção da branquitude como referência legítima do conhecimento. Os participantes ressaltaram que, nas universidades federais e estaduais da região Sul, menos de 20% do corpo docente é composto por pessoas negras, enquanto a presença de mulheres negras é praticamente inexistente, o que expõe a dimensão estrutural da exclusão. Também foi evidenciado que as instituições frequentemente criam mecanismos para burlar as cotas, transformando um direito em uma espécie de “loteria disfuncional”.
As experiências pessoais dos docentes trouxeram profundidade ao debate. José Amilton apresentou sua trajetória de pesquisa, que articula questão agrária, questão social e racismo, defendendo a reforma agrária como parte da luta antirracista e da reparação histórica. Já Carolina Bezerra ressaltou o papel essencial do sindicato e dos núcleos de estudos afro-brasileiros como espaços de acolhimento, formação política e fortalecimento identitário.
O debate também abordou a marca profunda do racismo estrutural na formação da universidade brasileira, construída historicamente para atender às elites brancas e difundir valores eugênicos. A mesa denunciou a negação sistemática de direitos de populações negras e indígenas, expressa tanto na violência estatal quanto na ausência desses sujeitos nos currículos, nos espaços de decisão e na produção de conhecimento. Jacyara Paiva destacou o “pacto narcísico da branquitude” e outras formas de corporativismo que bloqueiam o avanço de políticas antirracistas no ambiente acadêmico.
Os participantes defenderam que a construção de uma universidade antirracista não nasce da consciência ou da bondade branca, mas da luta histórica do movimento negro, que exige coragem, ruptura e transformação das estruturas institucionais. Reforçaram também a centralidade das mulheres negras nesse processo e a necessidade de reconhecer o racismo institucional como violento e coletivo, e não como um conjunto de atitudes individuais. Afirmaram, por fim, que a luta antirracista é civilizatória, e passa pela presença de pessoas negras em espaços de poder, apesar da resistência persistente do pacto da branquitude.
