Na última segunda-feira, dia 3 de novembro, a APES lançou oficialmente o Grupo de Trabalho de Políticas de Classe para Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCGDS) com a realização, em sua sede, de um importante evento dedicado a discutir as violências feminicidas, racistas e LGBTIfóbicas, além de refletir sobre formas de enfrentamento e luta dentro e fora da universidade. O encontro celebrou o compromisso do sindicato com as políticas de classe, gênero, raça e diversidade sexual, buscando fortalecer a construção de uma universidade pública mais inclusiva, plural e emancipatória.
A mesa de debate, com o tema “Violências feminicidas, racistas e LGBTIfóbicas: enfrentamentos e lutas nas pistas e nas universidades”, contou com a presença de três importantes pesquisadoras do tema: Letícia Carolina Nascimento (UFPI), vice-presidenta do ANDES-SN e autora do livro Transfeminismo, da coleção Feminismos Plurais; Brune Coelho Brandão (UNIVERSO), que apresentou diferentes cartilhas do Projeto Ser-Diverse; e Céu Cavalcanti (UFRJ), que apresentou para o público seu livro “O azuelo, a colocação e a tranca: Ejó de polícias e relações complexas nas noites da pista”, fruto de sua tese de doutorado em Psicologia Social.
O encontro marcou também o lançamento do Projeto de Extensão SER-DIVERSE – Observatório Latino-Americano da Diversidade Sexual e de Gênero da UFJF, coordenado pelo professor Marco Duarte (Serviço Social), com colaboração das professoras Joana Machado (Direito) e Juliana Perucchi (Psicologia). Foram lançadas também as cartilhas do projeto, voltadas à educação e promoção da diversidade.
Durante as falas, as convidadas destacaram que, apesar de a universidade ser um espaço de conhecimento e transformação social, ainda é marcada por violências, exclusões e preconceitos, especialmente contra pessoas trans e LGBTQIA+. Foram compartilhados relatos de adoecimento, discriminação e o sentimento de não pertencimento de quem enfrenta o preconceito dentro da academia. As palestrantes criticaram a normatividade cisgênera e positivista que domina a produção científica e marginaliza outras formas de saber e existência. Ressaltaram a importância de valorizar pesquisas, vivências e subjetividades diversas, defendendo uma ciência mais humana e comprometida com a justiça social.
Outro ponto central do debate foi a memória e a luta trans na universidade. Foi lembrado que, por muito tempo, pessoas trans foram invisibilizadas nos espaços acadêmicos, com pouquíssimos exemplos de docentes ou pós-graduandos trans. A primeira defesa de doutorado de uma pessoa trans na UFJF, por exemplo, foi realizada em 2022 pela Professora Brune Coelho Brandão, e foi citada como um marco, mas também como um sinal de que há muito a avançar. As participantes enfatizaram que resgatar essas histórias é fundamental para construir ancestralidade e políticas efetivas.
Houve também reflexões sobre os impactos da cisgeneridade, da branquitude, da heterossexualidade e da classe social dentro da universidade. A mesa defendeu que uma instituição verdadeiramente pública e transformadora precisa ser diversa, plural e socialmente engajada, apoiando projetos de extensão e pesquisa que tenham impacto real na sociedade. As falas abordaram ainda as dificuldades na implementação de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+. Durante o debate foi lembrada também a política de atenção à saúde trans, elaborada em 2023, mas nunca implementada devido à pressão de grupos conservadores.
O encontro destacou a importância da interseccionalidade, o entendimento de como raça, gênero, sexualidade e classe social se cruzam na experiência das opressões. Houve críticas também à ideia de que as pautas identitárias dividem a esquerda, afirmando que as lutas de gênero, raça e sexualidade fazem parte da luta de classes. O GTPCGDS foi apresentado como um passo importante para fortalecer essa luta dentro do sindicato, que também tem atuado em ações concretas, como o apoio à Marcha das Mulheres Negras.
