A tragédia que atingiu Juiz de Fora e cidades vizinhas (como Matias Barbosa e Ubá) em fevereiro deste ano tem, como já divulgado amplamente, elementos de excepcionalidade. O evento foi caracterizado por um volume de chuvas recorde, totalizando 595 milímetros em apenas 25 dias, o que corresponde a 250% da média histórica para o período.
Mas, é preciso dizer, o evento também é resultado de uma “necropolítica urbana”, onde a gestão do território historicamente expôs determinados corpos ao risco para manter o funcionamento de uma cidade transformada em mercadoria. É o que apontam os estudos da professora Raquel Von Randow Portes, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF e ex-diretora da APES.
Raquel Portes vem realizando uma leitura crítica dos marcos históricos e legais da cidade de Juiz de Fora, apontando para os elementos de exclusão e silenciamento de populações e para a construção institucional da segregação urbana. As chuvas de fevereiro, que resultaram em dezenas de mortes, centenas de pessoas feridas e milhares de desabrigadas, afetaram diversas regiões e classes sociais da cidade. Mas, conforme os estudos de Raquel apontam, a tragédia atingiu de forma mais severa grupos historicamente excluídos das políticas de planejamento urbano: a população pobre, negra e mulheres chefes de domicílio que vivem em ocupações não legalizadas.
As investigações de Raquel Portes sobre a cidade, iniciadas em sua dissertação de mestrado em Produção e Gestão do Espaço Urbano pela Universidade Federal Fluminense, deram origem ao trabalho “O Centro Tradicional e as novas centralidades na cidade de Juiz de Fora”. Esse levantamento é retomado e atualizado em seu novo artigo, “Juiz de Fora, a cidade construída a partir do “inviável”: Necropolítica e produção do risco na catástrofe anunciada”, em fase de finalização.
Considerando a pertinência dos dados coletados pela professora Raquel Portes para pensar o momento atual, a APES compartilha alguns elementos de seu amplo estudo.
Uma história de segregação
Raquel Portes demonstra que a situação urbana na qual a cidade se encontra atualmente, com diversas construções ilegais e muitos pontos em risco visível, é o resultado de uma “catástrofe anunciada” que remonta a mais de trezentos anos de decisões políticas e econômicas.


A pesquisa demonstra que a segregação socioespacial em Juiz de Fora tem raízes bastante antigas, na abertura do Caminho Novo no século XVIII. Um projeto de extrativismo que silenciou a presença de povos originários (como os Puris), ignorando suas formas de ocupação do território, e utilizou mão de obra escravizada como motor de desenvolvimento. Diferente dos povos originários, que ocupavam o território respeitando os ciclos dos rios e a estabilidade dos solos, Raquel demonstra que a colonização colocou em ação uma lógica de extração e imposição. Juiz de Fora passou a ser vista apenas como um recurso para o escoamento de riquezas (ouro e, depois, o café), ignorando os limites geográficos e as áreas de risco geológico.
Os ciclos que se seguiram ao do ouro consolidaram e intensificaram a segregação social e geográfica de grande parcela da população. Ao longo de seu trabalho, Raquel vai desconstruindo certas narrativas mitológicas e romantizadas sobre Juiz de Fora, desde a imigração europeia e a promessa de uma vocação industrial para a cidade:
“A imigração alemã e tirolesa, promovida pela Companhia União e Indústria como parte de um projeto de “embranquecimento” – que visava substituir gradualmente a mão de obra escravizada e europeizar os costumes – não trouxe privilégios aos imigrantes, mas sim promessas quebradas e exploração — uma face da mesma elite que manipulava todos os grupos em função de seus interesses. A industrialização, que no final do século XIX e início do XX fez de Juiz de Fora a “Manchester Mineira”, produziu simultaneamente o palacete do industrial e a casa operária precária. Os trabalhadores, majoritariamente negros, mas também imigrantes pobres e seus descendentes, foram empurrados para as áreas alagadiças e para as encostas íngremes, formando os primeiros núcleos do que hoje chamamos de “cidade ilegal”. O Estado, que concedia terras e privilégios aos empreendedores, fechava os olhos para essas ocupações, intervindo apenas quando ameaçavam os interesses do capital imobiliário nascente.”
Arquitetura da exclusão
Analisando documentos e projetos de planejamento urbano da cidade, Raquel Portes explicita como determinados marcos legais e técnicos consolidaram esse processo de expulsão das populações para as encostas da cidade. A Planta de Henrique Halfeld (1844), por exemplo, marco inaugural do traçado juizforano, dividiu a cidade em 12 faixas paralelas à atual Avenida Rio Branco, com a premissa de acessibilidade ao Rio Paraibuna. Como analisa Portes, a planta, porém, não nasceu de um planejamento público, mas de um loteamento privado de herança familiar, tratando o solo urbano como mercadoria desde a sua origem. Já em 1860, o engenheiro Gustavo Dott foi contratado para elaborar a primeira planta cadastral da cidade, dando origem a uma configuração geométrica que estrutura até hoje o centro comercial e político da cidade. O Triângulo de Dott, formado pela Rua Direita (atual Avenida Barão do Rio Branco), pela Rua do Imperador (trecho da Estrada União e Indústria, hoje Avenida Getúlio Vargas) e pela Avenida Independência é, segundo Raquel, a “expressão cartográfica de uma cidade seletiva” onde se “aplicariam prioritariamente os recursos públicos em serviços urbanos.”

O Planejamento como Ferramenta de Exclusão
Raquel Portes destaca como o urbanismo higienista e sanitarista do início do século XX atuou de forma seletiva. Em 1915, por exemplo, foi aprovado um plano de saneamento, abastecimento de água e defesa contra inundações para Juiz de Fora, elaborado por Saturnino de Brito e Lourenço Baeta Neves. No entanto, Portes afirma que não há evidências de que o plano de 1915 tenha sido implementado de forma significativa nas áreas de ocupação popular. “As obras de saneamento e defesa contra inundações, quando realizadas, tenderam a beneficiar os bairros centrais e as zonas de expansão valorizadas pelo capital imobiliário. As encostas íngremes e as várzeas alagadiças ficaram décadas à margem dos investimentos públicos em infraestrutura, recebendo, quando muito, intervenções pontuais e insuficientes”.
Outro ponto crucial apontado pela autora é a promulgação do Código de Obras de 1938. Sob o discurso da modernidade, a lei estabeleceu padrões construtivos inacessíveis à maioria da população, o que, na prática, criminalizou a moradia popular e empurrou os trabalhadores para a chamada “cidade ilegal” — justamente os terrenos íngremes e várzeas alagadiças que hoje desabam.
Apenas 2 anos após a promulgação do Código, Juiz de Fora foi palco da mais violenta enchente de sua história, com 91 horas de inundação, 6.800 desabrigados, casas destruídas e fábricas danificadas, conforme lembra Portes A tragédia, que agora foi comparada à de 2026, não foi uma fatalidade, mas a “materialização de decisões políticas e econômicas. Como demonstra Raquel, os principais fatores urbanísticos que contribuíram para esse cenário foram: o soterramento e canalização de inúmeros córregos que alimentavam o Paraibuna, matando os cursos d’água e aumentando a impermeabilização do solo, o que potencializou o volume das cheia; a apropriação de terraços fluviais e várzeas pelo capital e pelas elites; e o planejamento seletivo. O evento de 1940 foi, portanto, a restituição violenta do leito original do rio, ocupado pela “cidade legal”.
Após a enchente de 1940, porém, não houve uma tentativa de repensar a ocupação das várzeas. O Estado retificou o rio para proteger o centro comercial e removeu os desabrigados para a periferia (atual bairro Furtado de Menezes), consolidando a segregação.
Financeirização do Espaço
Raquel afirma que, a partir da década de 1990, Juiz de Fora passou por uma “inflexão neoliberal”, onde o planejamento urbano foi capturado pela lógica da cidade-empresa e do marketing urbano. A cidade deixou de ser um lugar de produção industrial para se tornar, ela mesma, um produto.
Investimentos massivos em “âncoras” de desenvolvimento, como o Independência Shopping (2008), o Alphaville (2012) e a concessão do Aeroporto Regional da Zona da Mata (2014), valorizaram seletivamente certas regiões, aprofundando a desigualdade. Enquanto isso, instrumentos do Estatuto da Cidade (2001) voltados à função social da propriedade, como o IPTU progressivo e o combate à retenção especulativa de vazios urbanos, permaneceram como “letra morta” na legislação municipal.
Necropolítica Urbana: O Desastre tem Cor e Endereço
A conclusão de Raquel Portes é contundente: a catástrofe de 2026 é um resultado histórico anunciado. Ela utiliza o conceito de racismo ambiental para explicar por que a água e os deslizamentos atingem com mais força mulheres negras e chefes de família em ocupações não legalizadas. Para a autora, a gestão do território em Juiz de Fora opera uma necropolítica que naturaliza a perda dessas vidas para que a engrenagem da “cidade-mercadoria” continue funcionando.
O trabalho de Portes convoca à reflexão sobre a necessidade de superar o “realismo capitalista” que nos faz aceitar essas tragédias como inevitáveis. Conhecer essa história de segregação e produção do risco é o primeiro passo para imaginar e reconstruir uma Juiz de Fora que pertença a todos os seus cidadãos, e não apenas ao mercado.

