Na quinta-feira, dia 26 de março, a APES realizou, em sua sede, uma mesa-redonda com o tema “Violência de gênero e docência”. O evento marcou as atividades da APES no mês de luta em defesa das mulheres, e abriu as ações do GTPCEGDS – Políticas de Classe, Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual, em 2026.
Participam da mesa, Catarina Dallapicula, docente na UEMG e doutora em Educação (UFOP); Flávia Lopes, TAE/UFJF e doutora em Ciências Sociais (UFJF); e Annie Schmaltz Hsiou, docente na USP e doutora em Geociências.
O professor Renato Gonçalves coordenador do GT deu início ao evento, agradeceu e fez uma saudação às participantes e passou a palavra para a professora Renata Bicalho que fez a mediação da mesa. Ela abriu a noite ressaltando que, durante o mês das mulheres, muitos fatos relevantes se deram, como o estupro coletivo no Rio de Janeiro, chamando a atenção para o fato das estatísticas sobre os casos de estupro no país serem muito altas, e a aprovação no Senado do projeto que criminaliza a misoginia. Chamou a atenção também para os ataques que o Deputado Níkolas Ferreira fez ao projeto, usando fake News para tentar barrar o projeto na Câmara.
A professora Annie mostrou dados de sua pesquisa que evidencia o desequilíbrio estatístico geral entre gêneros dentro da USP. Citou como exemplo o fato do Conselho Universitário da USP ser composto por 27,9% de professoras e 72,1% de professores, com números ainda mais desfavoráveis quando a questão racial é adicionada à equação. Os números evidenciaram, de uma maneira geral, o estereótipo de que às mulheres cabem a ocupação da esfera privada e aos homens o domínio da esfera pública. Também apontaram para um desequilíbrio crescente, em favor de homens, à medida que vão sendo analisados os cargos mais altos da carreira. Segundo sua argumentação, este contexto reflete ainda a predominância do patriarcado dentro das instituições, na desigualdade, misoginia, bloqueio de acesso e machismo.
Flávia Lopes, mostrou os dados de sua tese de doutorado, que foi motivada pela sobrecarga que as mulheres sofreram durante a pandemia, principalmente em face da maternidade. Sua pesquisa confirma a tendência apontada por Annie de divisão sexual da do trabalho, afetando diretamente a hierarquia. Como exemplo, mostrou que, na UFJF, 66,5% dos docentes nos cargos de titular são homens, enquanto 33,5% são mulheres, enquanto a situação se inverte dentro da carreira EBTT. Flávia destacou que a divisão sexual do trabalho, com acúmulo de funções para as mulheres, não diminui com a ascensão profissional, apenas se reconfigura e se reproduz em novos formatos. Ressaltou ainda a vigência da violência sutil, em que fatos que parecem corriqueiros como o modo de chamar ou apelidar, denotam mais respeito aos homens do que às mulheres. E toda esta pressão tem desembocado num maior número de mulheres entre os docentes que têm apresentado quadros de adoecimento mental.
A professora Catarina Dallapicula afirmou em sua fala que a violência de gênero nunca foi disfarçada, já que todos sabem quem são os assediadores e quem pratica a violência de gênero. Segundo ela, o quadro apenas começou a mudar a partir do momento em que as pessoas começaram a nomear as violências com misoginia, capacitismo, racismo; a partir da mudança dos códigos morais compartilhados. Para ela, não é possível enfrentar a violência, sem enfrentar os discursos comuns em curso dentro da universidade, já que o assediador apenas age por conta do modus operandi que valida moralmente seu comportamento. E a luta não pode ser individual, já que quando o sistema violenta uma professora, está violentando todas as mulheres. Ela defendeu que o combate ao assédio deve ser uma luta política dos sindicatos e de sua base, em prol de um ambiente de trabalho que não adoeça o trabalhador e é preciso que as denúncias cheguem para que todos possam agir e intervir na questão.
A Mesa foi transmitida ao vivo no You Tube da APES. Clique abaixo para assistir
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