“Não estamos no mesmo barco” – em entrevista Mariana Cassab fala sobre isolamento social, gênero e desigualdade

13/04/20

Em mais uma entrevista da série “Pandemia e Política”, conversamos com Mariana Cassab, professora da Faculdade de Educação da UFJF. Mariana Cassab fala sobre as desigualdades de condições no isolamento social, que agudizam situações colocadas pelo capitalismo. Mariana reflete sobre as diferentes vivências das mulheres em seus lares, nos cuidados com os filhos e no trabalho na situação do isolamento. Fala também sobre o lugar da escola e de outras redes de apoio e solidariedade neste momento. E destaca o papel da gestão pública para enfrentar o atual contexto. “Hoje durante a pandemia, como amanhã, o Estado mínimo é uma afronta à vida das mulheres trabalhadoras e mães”. Confira.

1 – Como mulher, mãe e pesquisadora, como você tem vivenciado a experiência do confinamento, diante dos desafios que o isolamento social nos colocou?

Vivemos a maior crise humanitária da história de nossas vidas. Nenhum acontecimento histórico desse século se aproxima do que se desenha em todo mundo em função da crise sanitária e econômica que já estava em curso, adultos agudizada por conta da pandemia de covid-19. Começo com essa assertiva para argumentar que essa nova realidade que altera a vida cotidiana de todas e todos em diferentes dimensões e escalas, coloca-nos diante do inusitado, do imprevisível. Cada pessoa terá condições objetivas e subjetivas particulares para lidar com esse horizonte de incertezas e medos. Inclusive os desafios irão se alternar com o correr do tempo. O que pondero, portanto, situa-se fundamentalmente a partir de minha vivência situada dessa experiência trágica: uma mulher de classe média, mãe, branca, funcionária pública, que possui uma residência própria com água tratada, segura e confortável para o tamanho da minha família e com o armário guarnecido de comida. Em outras palavras gozo do que chamamos de privilégios, mas que na verdade se configuram como direitos historicamente negados a maior parte da classe trabalhadora. Situar quem eu sou, significa, por conseguinte, situar quem não sou e nesse movimento apostar no exercício radical da alteridade no trabalho de análise da conjuntura em que vivemos e de como agir diante dos desafios postos. Em suma, não há respostas únicas para cada uma das questões elaboradas nessa entrevista, que me provoca a pensar sobre essa nova realidade instituída a partir do lugar de mulher, trabalhadora e mãe. Minhas ponderações são situadas, ao mesmo tempo em que procuram se comprometer com as mulheres trabalhadoras mais vulneráveis. Faço questão de começar o debate por aí, para sublinhar a grande desigualdade econômica e social que condiciona a vida das mulheres trabalhadoras que são mães. Dessa forma, buscar desvencilhar-me, e convidar o leitor também, da produção de julgamentos que se realizam de forma apartada das condições objetivas e subjetivas que condicionam a vida das mulheres. Não estamos no mesmo barco, como a mídia conservadora propaga. Uma mulher branca empregada com filhos não navega no mesmo barco que uma mulher negra, mãe, que atua na informalidade. Talvez no mesmo mar de incertezas, mas em embarcações bastante desiguais e pilotadas por governos e empregadores com diferentes níveis de comprometimento com a segurança das mães trabalhadoras. Dito isso, para não me alongar vou destacar apenas um desafio que se institui a partir da experiência do isolamento social: A necessária compatibilização da gestão da casa, os cuidados dos filhos e o meu exercício profissional. Na verdade, esse sempre foi um desafio, antes mesmo da pandemia do Coronavírus. Aos próximos sempre afirmei que me sentia correndo uma eterna maratona sem tênis, enquanto que poucos notavam que eu estava descalça. O capitalismo se realiza no trabalho invisibilizado das mulheres responsabilizadas geralmente de forma integral pelos cuidados da casa, dos filhos, dos idosos e dos doentes. Com duas crianças pequenas, por exemplo, nunca consegui trabalhar em casa. Somente a noite quando todos dormem e certamente eu estou bem cansada. Mesmo assim, já se foram muitas noites que dediquei ao meu trabalho, pois as exigências que enfrento desconsideram minha condição de mãe e são exatamente as mesmas de um homem colega de profissão. Essa é a realidade das mulheres trabalhadoras. Antes dessa crise sanitária, a gestão da casa era compartilhada com outra mulher, que minha condição salarial atual permite que eu contrate de acordo com todas as exigências da lei. Sempre soube que sem o trabalho de Tatiane, eu não teria condição de exercer o meu trabalho adequadamente. Agora, sigo obviamente sozinha nessa tarefa – perversamente não é o caso de todas as famílias que contam com o trabalho de profissionais domésticas. Isso institui uma rotina que junto com os cuidados com os filhos pequenos ocupa praticamente todo o meu tempo. Como fica meu exercício profissional? Em suspenso quase que na sua integralidade, mas isso é somente possível por conta da suspensão do calendário acadêmico definido pela administração superior de minha instituição, UFJF. Esse é um fator fundamental para proteção de minha saúde e segurança, como dos meus filhos. Meu trabalho me protege e cria condições objetivas para eu lidar com os desafios instituídos pelo isolamento social ao garantir a integralidade do meu salário (pelo menos por ora) e a possibilidade de ficar em casa e cuidar de meus filhos sem ter que trabalhar remotamente. Mas sabemos que essa não é a realidade da maior parte das mulheres trabalhadoras. Novamente minha realidade se configura como um privilégio diante do direito negado da maior parte das trabalhadoras mães. Muitas estão sujeitas a exigências profissionais novas que depõem contra sua saúde mental, como o caso de professoras obrigadas no supetão a dar aula via educação à distância. Outras empregadas no setor privado continuam a trabalhar colocando-se em risco por conta do medo de serem postas na rua. Já um número ainda maior de mulheres que atuam na informalidade tem seu orçamento familiar comprometido. Cabe ao Estado brasileiro garantir a segurança dessas mulheres trabalhadoras. Infelizmente, sabemos que o governo ultraliberal de Bolsonaro não se move e não se moverá nessa direção sem grande pressão popular. Em síntese, argumento que o isolamento não institui um desafio totalmente novo para as mães trabalhadoras. A questão é agudizada na pandemia da Covid-19, o que pressiona as famílias a reverem a divisão do trabalho doméstico e do cuidado com o outro. No contexto de nossa sociedade patriarcal e misógina essas são reconhecidas como tarefas femininas. Sua superação não se dará por imediato, mas por meio de muitas tensões, conflitos cotidianos e em muitos casos marcada pela violência psicológica e física. Sabemos que a proteção efetiva das mulheres passa, portanto, pela luta anticapitalista. Por hora, é preciso cobrar do Estado brasileiro a garantia da segurança das mulheres trabalhadoras, especialmente as mais vulneráveis que o capitalismo produz. Hoje durante a pandemia, como amanhã, o Estado mínimo é uma afronta à vida das mulheres trabalhadoras e mães. Essa política precisa ser varrida da gestão pública em nosso país e no mundo.

2 – Você considera necessário, e também viável, manter uma rotina familiar para mães, pais e filhos, ainda que o contexto seja tão adverso?

Tenho duas crianças bem pequenas. Apenas a primogênita já frequentava a escola de educação infantil e agora permanece em casa. Meu dia se move fundamentalmente em função do bem estar das crianças. Isso envolve manter a casa limpa e arrumada, cuidar da roupa, prover de comida e cozinhar e atender suas demandas constantes. Essas tarefas são corresponsabilizadas com o pai das crianças. Ainda assim, o volume de trabalho que assumo é maior e isso precisa ser constantemente conversado e negociado. Todas as funções acima mencionadas são cruciais para garantir uma rotina para as crianças e essas são possíveis apenas no contexto das condições objetivas de minha vida acima mencionadas. Assim, mesmo no isolamento social, há a hora de brincar, comer, dormir. Como são pequenas não há a hora do estudo. O brincar é o momento do lazer e da aprendizagem. Sempre fui uma mãe que procura brincar, mas no isolamento a demanda aumentou absurdamente. Na preparação para o isolamento, inclusive guarneci a casa com brinquedos e materiais educativos como: argila, piscina de areia, bolinha de sabão, papel pardo, tinta, pincel, entre outros. Ao contrário do que se pensa brincar não é algo trivial. Exige disponibilidade ao outro, está presente na ação, interditar um desejo seu, driblar o cansaço. O brincar é algo central na rotina das crianças e por isso me esforço no sentido de propor atividades e estar disponível. Entretanto, essa é a rotina de uma mãe com estabilidade no trabalho, que não precisa disponibilizar horas de seus dias no trabalho remoto, com casa própria, acesso à internet e a recursos materiais diversificados. Ou seja, a rotina de uma casa não se constrói em um vazio de condições. Pelo contrário, é afetada pelas mesmas. Por isso que nesse momento considero que o mais importante é a mulher não se cobrar e não sentir culpa se um pretenso ideal parece estar sendo violado. É preciso proteger as crianças, mas vivemos tempos difíceis e incertos. Ademais, maternidade não se restringe à ação individual de uma mulher. Os homens, a família, os amigos, o Estado e toda a sociedade são corresponsáveis pela vida e bem estar das crianças. Toda vez que sentir culpa, sugiro que a mulher se pergunte se o pai da criança sente culpa, se o empregador sente culpa, se o Estado sente culpa. Afaste a culpa e, como dito acima, comprometa-se na luta anticapitalista. Tenho certeza que todas estamos fazendo o melhor para nossos filhos. Tenha isso sempre no seu horizonte.

3 – Qual é o papel da escola enquanto rede de apoio neste momento? Você é favorável ao envio de atividades remotas para crianças?

Não devemos encarar a atual situação de isolamento social a partir de uma perspectiva falsa de normalidade. Isto é, a ideia que o impedimento de sair de casa e as consequências que essa situação gera podem ser resolvidas de forma simples e uniforme para todos. O aluno não pode ir para escola, então, as instituições educativas e seus professores devem garantir que a aula chegue até ele via as tecnologias digitais da informação e comunicação. Essa é uma visão profundamente estreita do ato educativo que resume a escola à transmissão do conteúdo. Pensar a educação a partir de uma perspectiva tecnicista e mercadológica reforça essa ideia e precisa ser fortemente rejeitada. Devemos ser cautelosos, inclusive, em relação aos grupos empresariais que atuam no campo educacional e enxergam na educação à distância um lucrativo mercado. Ademais precisamos considerar que o ato educativo se realiza na relação complexa entre sujeitos situados em seus pertencimentos de classe, gênero, raça, etnia, território, entre outros. Estamos falando de seres humanos que são afetados de formas desiguais por essa crise inominável e vivendo condições objetivas e subjetivas particulares para enfrentá-la. Precisamos nos questionar: quais são as condições que professores, alunos e seus familiares tem para dar conta de atividades remotas? Antes da pandemia já assistimos um quadro assustador de reprovação, distorção idade série, evasão escolar. Não é o momento de aprofundar as desigualdades sociais que marcam nossa sociedade a partir da oferta de oportunidades educativas para uns que têm condições de atendê-las e para muitos que não tem. Precisamos nos mover pela urgência da preservação da vida, que supõe também o cuidado com a saúde mental dos profissionais da educação, dos educandos e de seus familiares, especialmente as mulheres que acabam sendo o membro da família que assume a tarefa da educação domiciliar. Minha posição é radical nesse sentido, pelo menos por ora. Aula, não!! A vida está em suspenso. Os calendários escolares também devem ser suspensos nas redes pública e privada. Isso não significa que atividades à distância não possam ocupar o tempo e a rotina das crianças, jovens, adultos e idosos que estão impedidos de ir à escola. Todavia, não em um caráter de obrigatoriedade que garanta o cumprimento do número de horas que definem o ano letivo segundo a LDB. Mas como estratégias de manter os vínculos com a escola, de produzir reflexão crítica acerca do momento que vivemos, de instituir sociabilidades que confortem, produzam esperança e afeto. Para isso é preciso protagonismo do MEC, das secretarias estaduais e municipais de educação nesse processo. A produção de estratégias em âmbito nacional, regional e local, reguladas pelos sindicatos dos professores que protejam os profissionais da educação em relação a abusos. O tempo exige outro currículo. O tempo exige uma escola comprometida com a justiça social, democracia e à vida.

4 – Como envolver e conscientizar as crianças sobre a gravidade da situação de pandemia, sem correr o risco de apresentar a elas uma realidade incompatível com a suas capacidades de assimilação e elaboração? Sem criar mais ansiedade e medo?

Não sou especialista no campo da educação infantil e nem da psicologia. Há profissionais mais gabaritados para auxiliar as famílias. Todavia, certamente esse é um desafio que enfrento e que as famílias com crianças também foram obrigadas a enfrentar. Não há receitas prontas que atendem a realidade de todas as famílias. Cada faixa etária, nível de escolaridade, cada realidade, cada pertencimento identitário exigem formas particulares de abordar com as crianças a situação. Ainda sim considero importante não fingir que vivemos um estado de normalidade, como, por exemplo, explicar para uma criança pequena que ela está de férias e por isso não vai à escola ou que a vovó viajou. Com minha filha de três anos contei a história do coronavírus pelo intermédio de imagens e materiais que tive acesso via internet. Fiz adaptações que considerei necessárias em termos do conteúdo e da linguagem utilizada. Desenhamos o coronavírus quando ela expressa interesse ou quando quero explicar algo, como a necessidade do hábito de lavar as mãos e não botar objetos na boca. O que ela me pergunta, procuro responder abertamente respeitando o seu estágio de desenvolvimento intelectual e emocional. Procuro ser franca e tratar com o máximo de calma as questões que ela formula. Ajudou-me conversar com outras mães sobre como tratam com seus filhos a situação da pandemia. Ser responsável pela segurança de uma criança é uma grande responsabilidade. Isso exige muito, especialmente, das mulheres. Por isso, o autocuidado e a rede de solidariedade e apoio em torno das mulheres precisam ser redobrados. Se a mãe estiver dominada pelo medo e pela ansiedade, ela terá muita dificuldade de assistir seus filhos com cuidado. É preciso saber também a hora e os canais de busca por auxílio profissional. Uma rede de cuidado e promoção da saúde mental está sendo construída e precisa ser amplamente divulgada. Por fim, no tocante a essa questão recomendo o importante material produzido a partir de uma colaboração entre o Fórum Mineiro de Educação Infantil e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Infantil e infâncias, chamado “carta às meninas e aos meninos em tempos de covid-19” e disponível no endereço www.mieib.org.br.

5 – Como incluir virtualmente ou substituir as redes de apoio cotidianas, que foram impossibilitadas pelo isolamento, para que as responsabilidades práticas e emocionais não sobrecarreguem as mães?

Dois aspectos que já mencionei são cruciais para que as mães não fiquem ainda mais sobrecarregadas. O primeiro é desobrigar as mulheres, especialmente, as mães da exigência do cumprimento do trabalho remoto por longas horas. O trabalho pode ser para algumas mulheres um momento de alívio da rotina exigente, repetitiva e maçante da casa. Uma possibilidade de estar engajada em outra tarefa que não a casa e os filhos. De focar em outras questões. Consegui fazer uma reunião virtual do grupo de pesquisa que coordeno na FACED e passei até batom. Foi ótimo. Todavia, é preciso que se respeite o tempo e a disponibilidade objetiva que a mulher tem para se comprometer com tal tarefa. Ou seja, o ideal é que as exigências laborais das mulheres no isolamento fossem flexibilizadas. O segundo aspecto diz respeito às atividades que chegam via Educação à distância, que dependendo da faixa etária dos filhos é geralmente a mulher que precisa dar contra. Abandonar a lógica de que os filhos estão perdendo conteúdo. Essa é uma falsa problemática, mas para isso o MEC deve tomar decisões, como a suspensão da data prevista para o ENEM, que acalmem e confortem as famílias. Destaco ainda duas estratégias que experimento na minha vida particular, que obviamente não necessariamente é possível para toda mulher. Minha mãe faz parte do grupo de risco e está em isolamento social. Ela regularmente faz comida e me envia comidinhas compradas no mercado local. Essa é uma forma de tê-la indiretamente conosco, o que me conforta diante das saudades, além de objetivamente me ajudar na tarefa da alimentação da família. Ou seja, as famílias descobrem formas e estratégias de se manterem conectadas. O quindim da minha mãe já me salvou em um dia difícil. A outra são os grupos virtuais com as amigas e colegas de trabalho. Espaço para a escuta, para o riso, para a partilha das tensões provocadas pelo isolamento, os medos e a solidariedade. Para isso, é preciso definir algum momento do dia reservado apenas para você. Se a mãe está sozinha, dependendo da idade dos filhos, isso é muito difícil. Os recursos tecnológicos acabam sendo uma alternativa, que precisam ser dosados, mas não criminalizados. A criança certamente ficará mais tempo vendo desenho do que se gostaria. Um mãe que conta com a corresponsabilidade do pai ou outra mãe deve combinar momentos de descanso com o/a parceiro/a Em suma, diferentes atores e instâncias devem assumir o compromisso de atenderem e assistirem as mães trabalhadoras: o Estado, seus/suas parceiras, a família, os amigos, os colegas de trabalho, entre outros. Não há noite que dure para sempre. Um dia de cada vez, sabendo que no isolamento há dias melhores e dias piores. O importante é não desistir da luta e viver! Ademais, quem puder, fica em casa!

APESJF